terça-feira, 18 de novembro de 2025

O tempo pergunta ao tempo...

Acho que vou escrever um tratado sobre o tempo. 
Por que razão é adequado não cumprir horários? Por que se fazem marcações, se depois não se cumprem? Por que é normal estar atrasado? Por que é que cumprir horários é uma excepção? Por que é que já nem se pede desculpa? Ignora-se o acumular de tensão que isto traz? Ignora-se o que faz às pessoas? Ignora-se o desrespeito que isto representa? Por acaso, já nem sou eu que controlo o meu tempo? Quando se marca algo com alguém, o nosso tempo passa a pertencer a essa pessoa, que faz com ele o que quiser. E normalmente não quer grande coisa.

A espera surge como uma resignação inevitável. 

Conclusão: 40 minutos de espera por um exame que nem 5 demorou, sem um pedido de desculpas, sem um reconhecimento do atraso. 

Valia a pena pensar nisto...

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Espírito natalício

Tudo começa perto do fim de outubro. Quando os centros comerciais se enchem de enfeites. A sensação de dejá-vu instala-se progressivamente. Entretanto passou um ano. Cá  vamos nós outra vez... 
Um mês depois vem a ação do  Banco Alimentar e lá se compra uma lata de atum, do mais barato, e a missão pobrezinhos está resolvida. 
Vem dezembro e a bela árvore sai do armário, juntamente com toda a parafernália plasticosa. Depois dá-se corda aos sapatos e abrem-se os cordões à bolsa e compramos até não haver mais nada para comprar. Nesta altura, reinventam-se vontades,  acumula-se a chocolateria... Os chineses que, na sua maioria, nem são católicos, rejubilam. Seguem-se os jantares, almoços, brunches, pequenos-almoços, circo, teatro, concerto disto e daquilo que as solicitações são muitas e não podemos defraudar expectativas. 
O dia aproxima-se e estamos estafados, mas há que encher a despensa e o frigorífico e o congelador. Vem o bacalhau, o peru, o rolo de carne, o camarão, as rabanadas, os sonhos, as broas, o bolo rei, rainha, príncipe, a lampreia... Não é época de misérias.
Vamos agora discutir: na minha casa ou na tua? Convida-se a tia Gertrudes que já ninguém consegue aturar? Aparece o primo Manuel que bebe de mais? Convidamos o tio Otávio há discussão na certa.
E ei-lo que amanhece... O dia 24. À pressa, à pressa acabar umas coisas, gastar mais um dinheiro. Come-se até mais não caber, bebe-se da mesma maneira. Estamos esgotados, desesperados, depauperados...
Segue-se o dia 25. Come-se até mais não caber, bebe-se da mesma maneira. E depois inéééééééééééééércia!
Quando tudo tiver passado, sobra o lixo para deitar fora. A família ficou igual, quem é pobre continua pobre, quem tem problemas continua com eles, quem é mau continua mau. Para o lado dificilmente olhei, na pele do outro não me consigo pôr. O centro comercial encheu os cofres, os ricos ficaram mais ricos e os trabalhadores chineses continuam explorados.
No ano que vem - não tem nada que saber - repete tudo igual.
Não sei a que parte disto se chama a magia do Natal...

terça-feira, 9 de setembro de 2025

A Caverna


 Foi aqui que Platão pensou na caverna. De certeza!

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

A manta

A manta está curta. Se cobrimos os pés, destapa-se a cabeça; se tapamos a segunda, descobrimos os primeiros. E é nesta dicotomia que nasce a culpa, o desespero e a sensação de impotência.
A manta é um conceito que se aplica a muitas áreas, mas foi pensada para a sustentabilidade. Parece que não há como fugir, tudo perturba o planeta. A nossa existência perturba o planeta. E aqui se começa a delinear a linha entre a consciência e a paranoia.
Os feitos dos outros, que nos parecem impossíveis, devem deixar-nos com vergonha do que é a nossa vida (não) sustentável ou devem inspirar-nos/incentivar-nos a ir mais longe?
Alguns feitos que vejo publicados e louvados são, para mim, impossíveis. Daí que a estratégia de incentivo cai por terra. Fica só a culpa. Penso que nem as minhas avós que levavam vidas bastante sustentáveis, no que ao desperdício diz respeito, conseguiam meter todo os detritos que produziam num ano, dentro de um frasquinho de vidro.
Parece-me que é preciso uma boa dose de obsessão para conseguir tal feito. Ou obsessão ou mentira. Ambas me repugnam. 
Por isso vou ter de encontrar o equilíbrio de outra maneira ou viver com a sensação permanente de estar a incomodar.

domingo, 7 de setembro de 2025

Voltei voltei ou vim só dar um beijinho

 De 5 em 5 anos, dá-me a vontade! Quem sabe se poderia isto dar alguma coisa, quem sabe se terei alguma coisa para dizer, quem sabe se alguém terá algum interesse naquilo que eu possa dizer. Na verdade, enquanto outros criam “conteúdo” para os instas todos e mais alguns, por que não posso eu, no meu canto, na minha forma mais silenciosa e mais apagadita, criar o meu conteúdo para os meus vastos leitores?

Que temas? Qual é o nicho que não está ainda repleto de entulho onde eu caberei? Falo de quê? Do impacto da IA no ensino? Dos meus medos políticos? Da minha casa nova que já não é tão nova assim? Da minha jornada de aceitação (da largura das minhas ancas)? Ah! Já sei! Da menopausa… Não, falarei mesmo de coisa nenhuma, praticarei o exercício de retórica sobre o vazio. E, ainda assim, não serei original… 

domingo, 15 de setembro de 2019

Vidas

Algumas vidas foram escritas pelo Gabriel Garcia Márquez. Vistas de fora, não fazem sentido.
Outras pela Barbara Cartland. Há drama, há tristeza, mas aparece sempre um príncipe num cavalo branco e tudo acaba em bem.
Outras ainda pelo tipo que apresenta o jornal das 8. São gritadas, escandalosas e procuram sempre renovar-se sem sequer se virem a conhecer.
A minha foi escrita pelo Eça. Determinada pelas circunstâncias e o fim não é o que se deseja, mas o que pode ser e a malta adapta-se.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

A bela angevina, José Augusto França

Eis que Eça nos chega na sua dimensão mundana, com preocupações financeiras e solidão. Eis que a criação queirosiana nos chega como um processo de estudo, de negociação e de luta. De alguma maneira romanceada e romântica, parece-nos que um romancista escreve de rajada a sua obra, sem estudo, sem reflexão, sem dúvidas. A bela Angevina contraria essa ideia. Ao início, senti que a minha noção de Eça estava a ser desconstruída, mas depois compreendi que estava a ser enriquecida. E agora parece-me óbvio que um romance como Os Maias tenha oferecido bastante resistência na sua conceção.
E depois Eça também ama e tem comportamentos adolescentes em relação ao amor. Mas ama como um homem.
A construção das personagens, a introdução de excertos reais dos seus textos, a descrição da vida mundana no final do século XIX foram-me muito agradáveis. A bela angevina uma mulher elegante, adequada, mas também arrebatada, ousada e prática.
Não apreciei tanto os excertos em francês, porque me senti um pouco perdida. Não conheço bem essa língua e dificultou-me a compreensão da mensagem.