quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Espírito natalício

Tudo começa perto do fim de outubro. Quando os centros comerciais se enchem de enfeites. A sensação de dejá-vu instala-se progressivamente. Entretanto passou um ano. Cá  vamos nós outra vez... 
Um mês depois vem a ação do  Banco Alimentar e lá se compra uma lata de atum, do mais barato, e a missão pobrezinhos está resolvida. 
Vem dezembro e a bela árvore sai do armário, juntamente com toda a parafernália plasticosa. Depois dá-se corda aos sapatos e abrem-se os cordões à bolsa e compramos até não haver mais nada para comprar. Nesta altura, reinventam-se vontades,  acumula-se a chocolateria... Os chineses que, na sua maioria, nem são católicos, rejubilam. Seguem-se os jantares, almoços, brunches, pequenos-almoços, circo, teatro, concerto disto e daquilo que as solicitações são muitas e não podemos defraudar expectativas. 
O dia aproxima-se e estamos estafados, mas há que encher a despensa e o frigorífico e o congelador. Vem o bacalhau, o peru, o rolo de carne, o camarão, as rabanadas, os sonhos, as broas, o bolo rei, rainha, príncipe, a lampreia... Não é época de misérias.
Vamos agora discutir: na minha casa ou na tua? Convida-se a tia Gertrudes que já ninguém consegue aturar? Aparece o primo Manuel que bebe de mais? Convidamos o tio Otávio há discussão na certa.
E ei-lo que amanhece... O dia 24. À pressa, à pressa acabar umas coisas, gastar mais um dinheiro. Come-se até mais não caber, bebe-se da mesma maneira. Estamos esgotados, desesperados, depauperados...
Segue-se o dia 25. Come-se até mais não caber, bebe-se da mesma maneira. E depois inéééééééééééééércia!
Quando tudo tiver passado, sobra o lixo para deitar fora. A família ficou igual, quem é pobre continua pobre, quem tem problemas continua com eles, quem é mau continua mau. Para o lado dificilmente olhei, na pele do outro não me consigo pôr. O centro comercial encheu os cofres, os ricos ficaram mais ricos e os trabalhadores chineses continuam explorados.
No ano que vem - não tem nada que saber - repete tudo igual.
Não sei a que parte disto se chama a magia do Natal...

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