Muitas das coisas que acontecem neste país têm origem neste acontecimento que se deu em simultâneo com o aparecimento das televisões privadas. Hoje em dia, toda a gente pode ser entrevistada na rua e aparecer no telejornal ou noutro qualquer programa. Isto é bom. Todos temos direito à nossa opinião. E se tivéssemos jornalistas com capacidade de discernimento seria óptimo. Mas... o que se passa é que qualquer pessoa pode aparecer a falar o seu português pseudo-culto, que é quando as pessoas se põem a usar portantossss e hadem e por conseguintes e coisas assim... E depois a onda cresce e fica toda a gente a achar que "sim senhora, muito bem visto" e lá se vai a isenção. Reparem nas pessoas a opinar sobre os professores (que é um assunto que me é muito chegado), por exemplo, têm mais férias que as outras pessoas, só trabalham metade do dia e às vezes, até têm dia de folga, ganham muito bem, não fazem nada e estão sempre a queixar-se. Experimentem dar uma aulinha de 45 minutos. (Ainda ontem o pintor que me está a pintar a casa me perguntava se eu gostava de trabalhar com uma pessoa sempre a falar por trás. Eu respondi-lhe que não, mas que no meu caso, não costumava ser uma, mas umas dez ou quinze.) E quando uma pessoa entra num hospital? A partir do momento em que põe o pé lá dentro, grita a qualquer contrariedade: "Sou eu que lhe pago o ordenado!" O que me dá logo vontade de pensar: "Sim, pessoalmente, até já o vi o seu nome no cheque!"
Pensemos no caso da Esmeralda: desde o primeiro dia que se decidiu que o pai biológico era um alvo a abater, uma ratazana da sociedade. Que maldade, prender aquele sargento que sempre tinha sido tão bonzinho para criança. O quê? O que ele fez é crime? E o que a mulher fez também é crime? E o que é que isso interessa? O povo gosta de histórias de fazer chorar as pedras da calçada e de apedrejar em praça pública quem quer que possa arcar com as suas frustrações diárias. Outra coisa que acho impressionante é que estejamos a elevar a heróis mundiais dois adultos que foram jantar fora e deixaram três crianças de muito tenra idade num país estrangeiro a dormir sozinhas num quarto de hotel. E que tal, se pararmos um pouco para pensar, antes de concordarmos com tudo o que pessoas, que nem falar sabem, dizem?
É que, lamento ser eu a dar a má notícia, não é pelo facto de aparecer na televisão, que a coisa se torna verdadeira.
Se calhar o Homem nem sequer foi à Lua. E o ET não existe mesmo.
1 comentário:
Sem dúvida que o microfone cria na generalidade das pessoas uma sensação de importância e de poder. Realmente ouve-se muito disparate da boca dos que são abordados na via pública para opinar sobre os mais variados assuntos. Mas, pelo menos para a maioria desses entrevistados, há desculpa - falam do que não sabem ou são apanhados desprevenidos e acabam por fazer figuras incríveis na televisão nacional. Já para o Sr. Ministro da margem norte do Tejo não pode haver grandes contemplações. Em princípio, espera-se que se documente antes de falar e depois, se houve alguém que foi apanhado desprevenido, foi mesmo o povo português. O aquecimento global é, de facto, preocupante e merece a atenção e acção de todos, mas ainda não é caso para falar de desertificação da margem sul.
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