sexta-feira, 4 de maio de 2007

Os dias da música

Já há alguns anos que o CCB recebia a festa da música, uma iniciativa internacional que reunia (e ainda reune, mas em Portugal é que não) uma quantidade considerável de músicos à volta de um tema. Aquela que eu mais apreciei foi a festa da música dedicada ao Beethoven, não só porque foi aquela em que mais participei, como também porque me apanhou numa altura da minha vida em que me soube bem encher o meu espírito de coisas harmoniosas e felizes. Mas a Festa da Música acabou... Vieram este ano os Dias da Música. Quando soube da notícia apeteceu-me logo boicotar porque fiquei triste que este país triste tivesse de renunciar a um evento tão elevador da moral e da cultura por causa de dinheiro. E agora vêm queixar-se que a saúde anda mal, a educação pelas ruas da amrgura, porque haveriamos de ter nós um programa musical para uma elite de meia dúzia de alucinados que gostam de "ópera"? Porque sim e porque a ideia era precisamente alargar o público deste tipo de espectáculos, por isso é que os bilhetes eram muito baratos. (Apercebi-me há pouco tempo que as pessoas acham que tudo o que seja música erudita e meta orquestra deve ser uma ópera. Permitam-me que explique: uma ópera é uma obra que alia representação ao canto, portanto os Nocturnos de Chopin ou o Requiem de Mozart NÃO SÃO ÓPERA PORQUE NINGUÉM REPRESENTA NADA e no primeiro caso nem sequer ninguém canta nada.)
Mas voltemos aos Dias da Música. Depois fui convidada e acabei por ir e como sempre gostar muito. A música "clássica" tocada in loco tem o dom de me encher de magia e de alegria porque tudo parece harmonioso e equilibrado. Talvez por isso goste mais dos compositores que já morreram há alguns anos do que das coisas mais modernitas que por lá apareceram. Pronto! Admito que não sou grande admiradora de jam sessions. É um facto contra o qual nada posso fazer. (ou não posso ou não quero).
E quanto àquela história da elite... Por que raio é que devemos manter esta coisa da música erudita para ela? Aqui há uns anos, muitos por sinal, a Ana Faria fez dois álbuns de vinil com alguns trechos de obras clássicas cantadas com letras adaptadas às crianças e daí ficaram na memória de toda uma geração coisas como "Oh Clarinha olha as pombas..." ou "O Luís, o Luís já foi a Paris!". Lembram-se? Isso era música clássica! É lindo, experimentem seguir a melodia e sentir o impacto de uma orquestra inteira a tocar para vocês.
Truque das palmas: estas obras têm longas paragens que correspondem a mudanças de andamento. Não se bate palmas entre andamentos. Só no fim de cada peça. Por isso, se são leigos como eu e nem sempre reconhecem a mudança de andamento esperem que alguém comece a bater palmas. É simples.

2 comentários:

Anónimo disse...

Concordo quando dizes que a grande maioria dos portugueses acha que a música erudita é só para uma elite e esta dificilmente conseguirá livrar-se do estigma de ser um grupo de gente chata e cinzenta porque gosta de ópera e música clássica e "desperdiça" dinheiro com espectáculos desinteressantes e maçadores. Digam o que disserem, qualquer comum mortal pode apreciar a música erudita, como aliás qualquer outra forma de arte, sem que tenha a obrigação de demonstar conhecimentos profundos sobre o assunto. Trata-se apenas de estar disponível para disfrutar da beleza e da harmonia que o espectáculo nos pode proporcionar. E isto nada tem a ver com cultura académica, mas com sensibilidade. É certo que os preços praticados nem sempre são convidativos, mas é preciso lembrar que, ainda há bem pouco tempo, se realizou um espectáculo de Wrestling no Pavilhão Atlântico que, não obstante os preços obscenos dos bilhetes, esgotou em poucas horas. Um aluno meu (que por acaso usufrui do escalão A do Seguro Escolar) contou-me, cheio de orgulho, que o pai tinha gasto perto de 400 euros para levar a família toda a este evento que considero, no mínimo, desconcertante. Ainda para mais, o dito senhor passou horas largas numa fila de espera quando, apesar dos vários pedidos que já lhe fiz, por escrito ou por telefone, ainda não se dignou a perder 30 minutos para ir à escola tratar de assuntos sobre o seu educando. E isto existe, e isto é que é o nosso Portugal no seu melhor!
E depois ainda se diz "Todos diferentes, todos iguais"? Não me parece. Pode ser arriscado dizê-lo, mas somos mesmo todos diferentes e ainda bem!

Anónimo disse...

Não é preciso saber patavina do timing das palmas para aplaudir de pé este post. Bravo!
Dito isto, é óbvio que me encontro entre os ferverosos adeptos deste "sucedâneo" da Festa da Música. Pessoalmente, concordo até com quem afirmou que este formato aligeirado permite, diminuindo o frenesim da circulação entre espectáculos, um ritmo mais cómodo e propício a uma digestão serena de cada concerto (e já agora, de uma refeição ligeira entre sessões). Mas isso é apenas um pormenor.
Se dúvidas houvesse, aquele fim-de-semana provou que o sucesso da Festa da Música não estava no tamanho do seu orçamento mas na capacidade de cativar um público que existe mas que precisa ainda de "eventos alvanca" para crescer e solidificar-se como consumidor crítico e exigente. Acresce que, num país onde a educação musical ocupa, no plano curricular do ensino público, uma parcela risível, este tipo de iniciativa, na forma como democratiza, pelo preço e divulgação, o acesso a concertos de altíssima qualidade, é de vital importância.

Um bem haja, malmequer.

PS1: Clássicos, modernos ou contemporâneos, houve-os para todos os gostos. Mas o que fica na memória e alimenta a alma é, sem dúvida, a celebração da música como a mais divina e universal criação do homem.

PS2: É sempre bom saber que não sou o único a sentir uma especial nostalgia ao lembrar as desventuras de um tal Luís na sua viagem a Paris.