Não há maneira de saber o que as outras pessoas verdadeiramente pensam de nós ou da nossa situação na vida sem que ouçamos uma conversa atrás da porta... Elas até podem expressar aquilo que acham de nós, mas vão sempre tentar escolher as palavras certas, ou, no extremo oposto, tentar magoar-nos o mais possível, se estiverem zangadas.
Esta reflexão foi suscitada pela pergunta que se instalou na minha cabeça no sábado, quando depois de ter enchido um carrinho de compras criteriosamente escolhidas no Carrefour, de o ter levado para a caixa, esperado na fila e de as ter posto todas no tapete rolante, olhei para a cara da senhora e tive uma visão do sítio onde estava a minha carteira. Vi-a claramente verde, com o interior lilás, aberta em cima da mesa da sala. Olhei para a senhora e disse da forma mais jucosa que consegui: "Deixei a carteira em casa." Ela não mexeu um músculo, o que me fez pensar que não era a primeira vez que ouvia aquilo. E retorquiu: "Pelo menos divertiu-se no supermercado?". Bem podia ter dito: "Espero que lhe tenha sabido bem gozar com a minha cara." O tom de voz e a expressão seriam os mesmos. E fui-me embora a pensar: o que será que ela acha que eu sou? Agora, para além de estúpida e mal-criada, o mundo também acha que sou caloteira.
Desde sábado que se tem passado comigo um fenómeno estranho. Lembro-me das coisas que "comprei", começo a procurá-las mentalmente, até que percebo: Eu não comprei nada, limitei-me a fazer uma selecção das coisas que gostaria de ter comprado, se não fosse tão cabeça no ar.
E agora... lá vou eu voltar ao Carrefour, para repor o stock.
1 comentário:
Falando em situações constrangedoras, também é sempre interessante observar a reacção dos empregados de loja quando o nosso cartão multibanco não funciona. No meu caso, como sou 100% fiel à CGD (não tanto por opção, mas por contigências da minha vida profissional, enquanto parte da função pública) tenho passado por esta situação mais vezes do que seria desejável, pelo que já adquiri a estaleca necessária para passar por estes pequenos contratempos sem grandes estragos na minha auto-estima. Ora, as pessoas normais e minimamente responsáveis não se põem a fazer compras sem ter a certeza de que têm dinheiro disponível para as pagar, certo? Por isso, quando coisas destas nos acontecem, a culpa não é efectivamente nossa. Assim, o que geralmente faço é comentar, em tom de voz perfeitamente normal e com claro desagrado, que o serviço da CGD deixa muito a desejar. O que nunca faço, mas já vi outras pessoas fazerem, é ficar toda envergonhada como devesse dinheiro à pessoa que me está a atender e começar a susurrar como uma criança que foi apanhada a roubar uma caixa de pastilhas elásticas no supermercado. Seja em que situação fôr, a naturalidade vale tudo e fala por si. Acho que o verdadeiro problema, que explica perfeitamente as reacções desagradáveis de que somos alvo, é que o bom português parte sempre do princípio de que o outro está armado em esperto e o está a tentar enganar. Quanto a isso, nada a fazer. Não temos culpa que as pessoas tenham vistas curtas e até se orgulhem de ser assim!
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