sábado, 12 de maio de 2007
O senhor que ganhou as eleições
Na França, no passado fim-de-semana, houve um senhor que ganhou as eleições presidenciais. E esse senhor tende para a direita. Até aí tudo bem. O problema é que, se calhar, ele tende demais para esse lado. E não posso negar que isso me assusta. Comparo esse fenómeno com o cartaz do Marquês. Aquilo que o presidente do partido cujo nome agora não me lembro disse é mesmo verdade. Ele limitou-se a pôr por escrito aquilo que muitos cidadãos pensam: que os emigrantes não deviam cá estar e que nos estão a roubar os empregos e a ajudar a baixar os salários dos portugueses. Sobre isso acho que não vale apenas dizer mais nada a não ser que foi assim que se começou a legitimar o assassínio de 6 milhões de judeus na Alemanha Nazi.
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1 comentário:
Bem, não me parece que o enviesamento do presidente gaulês nos deva preocupar assim tanto, nem tão pouco inspirar as inquietações do género que, como a todas as pessoas de bem, provocam as manifestações xenófobas de alguma gentalha lusa. É certo que a sua posição sobre a adesão da Turquia à UE e o seu passado como Ministro do Interior adepto de uma linha de acção dura no combate ao crime e à delinquência pode causar alguma apreensão. Mas a questão turca é complexa e está longe de ter uma solução imediata ou consensual e a violência que se observa nos subúrbios de França tem proporções inimagináveis para um país europeu. Por outro lado, estou em crer que a vigilância dos seus pares na UE servirá de dissuasor suficiente para que não ceder à tentação de “Le Penizar” a sua política de imigração e administração interna. As primeiras nomeações governamentais, com destaque para a Ministra da Justiça (de origem magrebina), parecem apontar no sentido certo. No plano económico, as suas propostas pareceram-me mais lúcidas, actuais e realistas que as da sua vencida opositora. Nesta matéria, a França é um caso paradigmático: o seu Estado Social vem-se afundando no abismo que separa os dois modelos ocidentais dominantes – o Liberalismo Anglo-saxónico (mesmo que disfarçado pela terceira via de Blair) e o Estado Garantia dos países do norte da Europa – sem capacidade de escudar, por muito mais tempo, a economia francesa dos efeitos da globalização. A mudança de rumo é, por isso, urgente.
Sobre imigrantes e emprego, lamento que o argumento económico seja constantemente utilizado pelos xenófobos da nossa praça e que colha a simpatia (mais ou menos assumida) de tanta gente. O problema é que o argumento até é válido, no plano teórico, mas é sempre deixado incompleto (vá-se lá saber porquê…). De facto, têm razão quando afirmam que os imigrantes, ao aumentarem a oferta no mercado de trabalho forçam os preços (salários) para baixo. Mas a realidade é um pouco mais complexa: na verdade, não existe um mercado de trabalho único, existem vários, e os imigrantes só competem nos mercados de emprego menos qualificado, porque as suas habilitações (e os nossos preconceitos) não lhe permitem acesso aos mercados mais qualificados. E nos mercados de trabalho menos qualificado o panorama é o seguinte: como os salários são baixos logo à partida, muitos dos portugueses com baixas qualificações preferem recorrer à segurança social em vez de “vergar a mola” nas obras públicas ou nas lojas de centro comercial; a procura é, por isso, superior à oferta, e se não fossem os contingentes de imigrantes dos PALOPs o ex-Primeiro-Ministro que agora é Presidente desta República perdia o prémio de rei do betão; nos demais sectores industriais, a concorrência mundial trata de levar as fábricas de mão-de-obra barata daqui para fora (deixando-nos mais pobres, porque além de não se gerar emprego também não se gera rendimento). Se juntarmos a isso a inversão da pirâmide etária da população portuguesa e a consequente insustentabilidade do sistema de Segurança Social, damos a machadada final no argumento xenófobo. E nem foi preciso apelar a valores mais nobres, como a tolerância e a solidariedade.
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