sábado, 5 de maio de 2007

Ser português

É mais fácil do que pensamos perder a noção de nacionalidade, o sentimento de ser português e de ter orgulho na nossa História e na nossa nação. Sim, é verdade que somos um povinho cheio de defeitos e imperfeições: uma terra onde é mais provável que as coisas corram mal do que bem; uma terra onde as pessoas ganham pouco e trabalham muito; uma terra onde a desorganização e o amadorismo reinam alegremente; uma terra em que a competência é muitas vezes desvalorizada em favor do compadrio; uma terra em que é preciso ter uma cunha para ser atendido decentemente nos hospitais, finanças, segurança social ou outra qualquer repartição pública; uma terra onde comentamos com os amigos e familiares quando a médica de família não nos deixa à espera duas horas para nos atender (bem haja, Dr.ª Edith Proença.), quando não temos de esperar um dia inteiro para ser atendido na segurança social; mas também uma terra que é nossa...
Só quando saí do país e vivi dois anos numa sociedade que funciona quase na perfeição é que me apercebi que isso é tudo muito bonito mas o sentimento de pertença é superior à perfeição administrativa e eu, para o bem e para o mal, sou portuguesa.
Este sentimento veio-me outra vez em força quando, na véspera do 25 de Abril, fui ao Tóquio (afamada discoteca do Cais do Sodré) e vivi uma noite de música de intervenção e rock dos anos oitenta, exclusivamente portugueses. Foi uma sensação enternecedora ver uma casa cheia de gente que conhecia de cor as letras das músicas que passavam, e que se unia a cantá-las. Também essas músicas são um pouco da nossa história enquanto povo e enquanto cidadãos. E é nesses momentos que redescobrimos que, apesar de tudo o que nos separa, temos um background comum que é a nossa cultura e a nossa história recentes. Penso que deviamos esquecer um bocado aquela história de sermos o país dos Descobrimentos e centrarmo-nos mais no reconhecimento dos nossos defeitos e na tentativa de os superarmos. Não há mal nenhum em ter defeitos, só há mal em não os querermos ver e emendar. Todos ganhávamos se Portugal deixasse de ser só um belo país para passar férias e passasse a ser também um belo país para viver. E por favor, não me venham dizer que a culpa é do governo, porque os nossos governantes são como são, não porque são governantes, mas porque são portugueses.

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