sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Laura - 4º episódio

Amar como ela pensava estar amando é uma situação muito cobarde por ser uma maneira de ser conformista. E uma maneira de não encontrar o amor. Laura não pode amar assim, porque para Laura o amor prende-se com a busca da coragem. Tem que fazer alguma coisa, chegou enfim a altura de se mostrar corajosa.
Sente um alívio grande, afinal toda aquela história não foi em vão. Saiu fora de si, passou a sua condição humana mas agora mostrava-se fraca. Agora voltou a si. Temporariamente, o seu sonho tinha-se realizado, mas a felicidade é efémera e por isso agora acabou. Mas ficou a certeza de ter dado um passo em direcção à coragem e está mais perto do amor. Olha Carlos e tenta sorrir.
No fundo esta situação também não é justa para ele. Deixar-se amar sem amar, não é justo para ninguém. E como ver ao longe uma grande alegria e não poder entrar nela. E estar de fora. Quem ama é sempre feliz porque é capaz de dar sem pedir em troca. Quem não ama não pode ser assim tão feliz e por essa razão Carlos não vai ser feliz com Laura. E sua obrigação deixar Carlos ser feliz, principalmente agora que sente uma enorme gratidão, por ele lhe ter dado a mão em direcção ao amor.
Compreende agora que o amor não está ao virar de qualquer esquina. E, sim, fruto de um trabalho muito grande de amadurecimento que Laura está a começar a percorrer. Carlos serviu também para isso.
Lembra-se de si mesma a correr de loja em loja. Era preciso tanta coisa, e estava tão feliz.( Não, não estava feliz, vivia na ignorância. Mas que lhe importava isso se não tinha consciência dessa ignorância.) Lembra-se da mãe, que disse, muito solenemente, quando lhe deram a notícia: “Vou dar-te os meus lençóis de linho”.
Pobre mãe, todo o seu trabalho foi em vão. Talvez não, se calhar foi preciso todo aquele aparato para pôr Laura a pensar. Lembra-se da irmã que ainda há pouco participava naquela espécie de teatro. Foi com ela que percorreu quase todas as casas e comprou aquilo que Carlos gostava.
Ao pensar nisto, pensa na sua relação com Carlos e chega … conclusão que durante aqueles três anos foi-se anulando e Carlos tomara as rédeas de si mesma. Mais uma prova que ainda não ama. Se amasse teria continuado a ser ela mesma e se Carlos a amasse nunca teria destruído a sua vontade. Sente-se cada vez mais forte.
Depois lembra-se da avó. Ela sempre disse que Carlos não a amava e agora sabe que isso era uma maneira de dizer que ela também não o amava. A avó sabia, a avó tem vocação de mãe e uma mãe sabe tudo. Promete a si própria que quando sair dali vai agradecer à avó.
Quando sair dali... O que vai ser dela? Isso não importa. O que vai ser de Carlos? Isso, sim, é importante. Laura sente que tem na mão o destino de homem que há muito sofre, mas Laura sabe que desta vez ele não vai sofrer. Ele vai perceber que se ela ficasse ali o sofrimento só podia continuar. Laura é para Carlos a lembrança de um passado que não merece ser lembrado. Carlos não precisa de lembranças, precisa de uma vida nova.
Leva a mão à cabeça e com ela a voz da mãe: “É lindo, dos mais lindos que tenho visto, e olha que não tenho visto poucos!”. Não mãe, um vestido de noiva é um trapo. Lindo é o amor! Quando duas pessoas se amam o vestido fica lindo, de outra maneira é só um trapo.
Apercebe-se que tem um mar de gente que se sente na obrigação de sorrir à espera que ela diga sim. Chegou então a altura. Laura olha longamente para Carlos porque quer guardar para sempre o olhar do homem que lhe mostrou o amor. Carlos sorri com aquele sorriso que deixa sair o mais fundo da alma, o sorriso que mostra o verdadeiro Carlos, o que tem pesadelos, o que sonha em encontrar uma nova Caroline...
Finalmente a avó está a sorrir!
Calmamente o padre repete a pergunta, agora tem consciência e sabe de onde conhece aquela voz. O padre já não tem vestido a toga psicadélica e sorri. ( Que estúpida mania esta de sorrir por tudo e por nada! )
Laura arranca o véu do cabelo! Atira o ramo de flores e sai da igreja a correr.
8 a 11 de Outubro de 1993

1 comentário:

Anónimo disse...

Também conheci uma pessoa, que tal como a Laura, só queria amar. Também tinha sempre um sorriso nos lábios e a simpatia no olhar. Mas desconfio, para não dizer que tenho a certeza, que o amor nunca lhe sorriu. Nem uma única e mísera vez. Não era médica, quando muito empregada de balcão num café triste e fumarento. As pessoas olhavam para ela com indiferença e desdém. Mas ela sorria sempre. Talvez a troçar dessa indiferença. Tinha uma voz triste e cava, mas linda. Parece que a estou a ouvir. Chamava-se Júlia, e até na morte, foi tratada com indiferença. Às vezes penso nela, e em como a Júlia não se deve ter sentido, sem amor, sem nada...
Não sei se a Laura é pura ficção, mas a Júlia é bem real...