quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Laura - 3º episódio

Combinou-se um dia e Carlos apareceu. Encantou toda a gente. Por ser um dia muito importante a avó também lá estava. Portou-se sempre de uma maneira estranha. Laura teve medo.
A mãe, a doce mãe de Laura, gostou muito dele. Ela viveu sempre com a mesma esperança de Laura. Também ela tinha o mesmo fogo de encontrar um grande amor. O mais perto que chegou foi ao pai de Laura, por isso o amor da filha fazia do homem que ela amasse, fosse ele quem fosse, o mais lindo dos homens. O pai de Laura viu em Carlos um monte de vantagens económicas. Não que ele não gostasse de Laura, mas era incapaz de o dizer. Não sabia mostrar que gostava de alguém e isso valeu-lhe o desamor da mulher e o afastamento dos filhos. Gostou muito de Carlos pela mesma razão da mulher, mas o mais terno que pode dizer foi que ele daria uma vida confortável à filha.
Para as irmãs de Laura, Carlos seria o cunhado ideal. Era charmoso, bonito e a sua idade tornava-o nobre e dava-lhe um glamour irresistível. Eram muito novas as irmãs de Laura...
A avó foi o caso mais sério. Quando ficou sozinha com Laura, exprimiu o seu desgosto. Ela tinha encontrado um homem que não a amava. Ninguém era feliz assim. Laura achou absurdo, claro que Carlos a amava!
Agora pensa nessa frase e lembra-se da história triste que Carlos tem atrás. Imagina o fogo e imagina o corpo calcinado da loura mulher de Carlos... Sente um desespero enorme, o desespero que Carlos talvez tenha sentido quando soube que Caroline ardera no fogo. Sim, é verdade, sempre o soube, Carlos ama a primeira mulher, sente a falta dela. Precisa de Laura mas não a ama. Precisa dela porque ela o ama tanto como a primeira mulher. Precisa dela porque precisa de ter quem lhe afague o cabelo nas noites de solidão. Precisa dela porque tem pesadelos e quer acordar de noite e pensar que Caroline ainda lá está.
Laura tem um turbilhão de ideias a correr-lhe pela cabeça. Finalmente percebeu que não devia estar ali.
A voz monocórdica de alguém vagamente conhecido que agora veste uma toga vagamente psicadélica diz uma ladainha esquisita que não lhe é estranha. Mas isso não tem a menor importância. O que interessa agora a Laura é que descobriu que o seu amor não vale nada.
A sua volta tudo é estranho. Os anjos soltam-se das paredes e voam em direcção a si, em vôos rasantes quase lhe tocam os cabelos. O barulho da voz monocórdica que não lhe é estranho torna-se o som de quem, à distância, vai carpindo uma ladainha interminável. Todas aquelas pessoas parecem-lhe judeus em camâras de g s. Vê-os sem roupa e as mães choram sem ruído a distância dos seus filhos. E Deus ri, foi ele que criou este purgatório, onde Laura paga as suas penas: estar ali sem querer, estar ali sem poder.
O amor é muito mais do que ser capaz de dar a vida por amor. Amar é dar sem pedir em troca e por isso dar o que não nos faz falta. Parece egoísta mas não é. Vejamos: o amor é um sentimento positivo; se ao darmos amor pedirmos amor de volta estamos a ser terrivelmente mesquinhos, a mesquinhez é um sentimento negativo e que por isso não está abrangido na definição de Amor. Laura dá, mas quer de volta. Não é capaz de amar sem ser amada, pelo menos agora. Ser que ainda não encontrou o amor? Ser que pode viver com alguém que não a ama? Não, Laura não pode dar o que não lhe faz falta porque Laura é quem precisa mais.
Ser essa situação justa para si? Para Carlos? A voz do homem-de-toga-psicadélica mistura-se com a voz do próprio pensamento. Volta a procurar a avó com os olhos. Sente apoio nos olhos da avó. Ela disse uma vez a Laura: “Mulher nenhuma pode fazer alguém feliz se ela própria não é feliz, foi por isso que inventaram a separação.” Laura não quer nunca separar-se por isso só casar quando for feliz. Agora tem a certeza.

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