terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Laura - 2º episódio

Laura tem um orgulho muito especial na avó. Quando era pequena e tinha uma dor na alma lá ia a correr esconder a cara no seu colo. Houve uma altura no mundo em que o papel da mulher era esse: saber dar união e força à sua família. Desde pequena a avó teve consciência do seu papel e por isso era tão boa a desempenhá-lo. Uma mulher para saber ser mulher tinha que saber ser mãe acima de tudo. E ser mãe é ter sempre um colo para receber gente com uma dor na alma. Em casa da avó, Laura era outra vez miúda e o medo de não ser amada ficava … porta. Por isso se ia a casa dela ganhava um alento diferente e a esperança renascia.
E assim ¡a tamém naquela tarde de Maio por aquela rua cheia de gente que levava na sua corrente, Carlos, um homem para amar.
De repente olha com surpresa para a avó. Est ali mas, coisa estranha, n„o tem o sorriso calmo que irradia a paz de uma vida perfeita. Parece que luta com ela própria. Neste momento começa uma ligeira inquietação a correr-lhe pelo corpo. Olha … sua volta, aquela cara quase conhecida continua a falar:
- O afecto... dois seres... felicidade...eternamente...
Essa era também uma das caracteristicas do amor ideal, seria para sempre. Volta a pensar naquela tarde de Maio, na rua. Ia a divagar e distraída foi contra um homem que lia calmamente o jornal encostado paragem do autocarro. Que coisa mais normal! O homem estava também distraído e por isso foi um choque catastrófico. O jornal voou em todas as direcções e Laura deixou cair os embrulhos todos no chão. Acolheram-se um ao outro com uma gargalhada e uma série de acasos sucessivos fizeram o começo do namoro.
Carlos era um homem que lhe fazia lembrar o avô. Tinha também mãos de colher o mundo. Tinha também a doçura de quem manda amores-perfeitos numa carta de amor. Era advogado. Não sabia de onde vinha o amor que tinha por ele. Nasceu de repente e para não estragar o encanto dessa surpresa, Laura nunca pensou nele. Para falar verdade não sabia muito da vida dele, só que tinha uma história triste atrás de si. Durante muitos anos não conheceu ninguém que a amasse ou que ela fosse capaz de amar. Carlos apareceu-lhe com o acaso e por isso era tão querido. Por isso e porque quando o encontrou vinha da casa da avó e trazia consigo, bem presente, a imagem da vida perfeita. O que ela mais gostava quando estava com Carlos era não ter de pensar, tudo lhe saia naturalmente.
Carlos era muito mais velho e tinha a tal história triste atrás de si. Para Laura foi como se um lindo menino solitário lhe tivesse vindo parar às mãos, para cuidar. Carlos precisava de si, sentia-o. E o seu instinto de mãe, amava-o mais por isso.
Namoraram muito tempo e, pouco a pouco a relação foi-se definindo. Laura queria muitos filhos, Carlos não os podia ter. Laura esqueceu o seu desejo. Carlos queria estar mais tempo com Laura do que ela lhe podia dar. Laura abandonou um consultório. Carlos não gostava do Natal. Nessa noite Laura deixou a família e ficaram os dois sozinhos.
Carlos n„o impunha nada. Mas Laura tinha uma necessidade absoluta e quase irracional de agradar a Carlos. Agora acha isso esquisito pela primeira vez.
Sente a sua m„o apertada na de Carlos. Vˆ uma das suas irmãs por de trás de um grande livro, diz palavras que não entende e olha para si, parece que está num grande pesadelo. Olha para o pai. O seu ar concentrado deixa transparecer a consciência de um espírito superior. Foi sempre assim, o pai. A avó diz que herdou o porte dos grandes homens, mas não lhes herdou o amor - acrescenta Laura.
Laura agora pensa nos homens da sua vida. O avô, que nunca conheceu, mas que mesmo assim tem saudades; o pai que aprendeu a gostar e por isso não gosta muito; os irmãos, que por serem muito novos não chegam a ser homens; e Carlos. Laura chega à conclusão que Carlos foi o único homem verdadeiro da sua vida. Ainda bem!
Quando o levou a casa pela primeira vez, estavam todos nervosos. Conheciam Laura e nunca a tinham visto assim. A calma que sempre a acompanhava tinha desistido de o fazer … algumas semanas atrás. Um dia chegou a casa e disse: ãTenho um grande amorã. O pai, sempre muito prático, ponderou logo qual seria a melhor altura para ela o levar lá a casa. As irmãs e a mãe ficaram visivelmente contentes. Elas conheciam-se as quatro muito bem e por isso todas sabiam que Laura o procurava … muito tempo. Também queriam conhecê-lo mas era uma necessidade espiritual, não uma maneira de negociar como o pai a encarava.

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