Todos sorriem para Laura. Afinal, todos se sentem na obrigação de sorrir para Laura. Laura sorri para todos, com uma convicção trémula. Só não sorri para si.
Laura tivera um sonho: queria amar, amar muito. Amar tanto que se sentisse capaz de dar a vida por amor. Muito pequena leu Romeu e Julieta, que andava sempre por cima de qualquer coisa lá em casa, todas as mulheres da casa faziam dele a sua bíblia; com a diferença de que Laura fez dele o seu modo de vida. Foi assim que conheceu o tipo de amor que queria para si: louco, completamente irracional e por isso sem conhecer o medo, sendo capaz de destruir qualquer barreira. O sonho de Laura era esse: amar, e por isso, por haver em si um sentimento superior que a distanciava dos outros mortais, conseguir ser corajosa.
Tinha uma família enorme que gostava muito dela. Tinha uma profissão da qual se orgulhava muito, era médica. (Essa era também uma das suas maneiras de tentar ser corajosa.) Tinha sabido ter sucesso em todas as etapas da sua vida, como estudante, como médica, como filha, como irmã... Mas era um sucesso que lhe sabia a pouco. Sentia-se sempre limitada, no seu íntimo queria dar mais, queria ser recordada, não pelo mundo, mas pela suavidade do amor. Isso para ela não chegava a ser uma frustração, ou melhor, era uma frustração racionalizada. Laura tinha a esperança de um dia vir a amar e assim se quebrar a barreira que a prendia a ela própria.
Subitamente tudo mudou. E quando digo subitamente é porque um dia, na rua, no meio da multidão, encontrou um homem para amar. Foi como sempre sonhou que seria, nasceu de um acaso. De repente sentiu subir por si uma força que não tinha. A partir daí amaria e sentir-se-ia fora de um tempo com espaço, de uma vida com limites. Desse momento até ao que vivia agora o tempo tinha sido puramente um acaso.
Agora aquela voz com um rosto ligeiramente conhecido tinha começado a falar, dizia entre muitas coisas, rodeado por um barulho cheio de um eco frio e brilhante:
-...dia feliz...
Sim, tinha sido um dia muito feliz. Vinha da casa da avó e como sempre lhe acontecia quando vinha de lá sentia a força de uma mulher de força.
A avó tinha um gosto bom a passado e irradiava a paz de uma vida perfeita. A sua casa cheirava a maçãs frescas e o seu cabelo cheirava a alfazema. Sempre sentada na sua cadeira de baloiço, tricotando uma camisola para a filha, um casaco para o neto, umas botinhas para o bisneto, costumava ter um olhar sonhador e dizer:
- No tempo em que o vosso avô me mandava amores-perfeitos pelas cartas...
Essa era a recordação mais querida da avó, aquela vida simples guardava magia em cada olhar. Uma vez a avó mostrou-lhe os amores-perfeitos. Velhos, ressequidos, guardavam ainda o símbolo de uma união perfeita. Uma união que tinha resultado de uma história simples mas que tinha crescido e se tornado na base daquela família. Todos conheciam a história, todos a sabiam da boca orgulhosa da avó que não se cansava de a contar, como um ritual.
O avô era um grande homem grande com mãos de colher o mundo. A avó tinha um orgulho imenso nele e na sua carreira de brilhante advogado. Foi também por causa dela que, um dia, o avô se viu obrigado a mandar amores-perfeitos pelo correio à avó. Isso aconteceu quando veio estudar para Lisboa.
A avó ficou na terra, sentada na cadeira baixa ao pé do lume da cozinha, a fazer ajjours em lençóis de linho e a bordar monogramas em toalhas de mesa; à espera de casar. O avô voltou um dia e casaram. A avó quando chega a esta parte da história levanta-se muito solenemente da cadeira e vai até ao baú que tem ao pé da cama, abre-o e tira de lá o lençol caseado. Mostra-o e diz:
- Como tudo era diferente. Havia mais respeito.
Depois de casarem deram a volta ao mundo. Quando voltaram (a avó diz de si própria) era outra, era uma mulher e trazia no ventre a primeira dos seus oito filhos.
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