sábado, 24 de fevereiro de 2007

CEF

Jusifica-se talvez hoje fazer aqui um tributo aos meus CEFs. Deixam-me a cabeça em água, todos os dias. Deixam. Mas também aprendo todos os dias com eles. Ninguém disse que o conhecimento era fácil de adquirir. Percorrendo as fichas desses sessenta alunos verificamos que poucos deles usufruem de famílias normais como a minha, muitos vivem com tios, com avós e dos pais não se ouve nem falar. Os interesses deles estão todos distorcidos e muitos deles são marginais de carteirinha com cadastro e dias passados em reformatórios e tornozelos marcados pelas geringonças electrónicas. Mas que outra forma teria eu de conhecer mundos como esses, já que não sou nem tenciono passar a ser militante do BE? Muitos dias não têm paciência para a escola e destroem tudo o que lhes possamos querer ensinar, mas também há os momentos em que conseguimos trocar algum carinho e eles riem-se comigo e eu com eles. Penso muitas vezes que se eu tivesse uma vida assim não queria saber da escola para nada. Parece que somos mesmo o produto do meio em que vivemos. Dir-me-ão: mas houve o fulano tal que era desse meio e... Sim, pois deve ter havido, mas foi só um. Alguém que viu o buraco no meio do lodo e saltou. Mas acho que estes não o encontraram ainda. Acho que vivem perdidos no mundo que os rodeia e reagem aos estímulos mais imediatos, como os animais. Têm uma sexualidade completamente aberta e respiram hormonas. E depois fazem asneiras atrás de asneiras e já temos pelas minhas contas 2 grávidas com 16 anos. Convenhamos que em 4 meses e 15 miúdas não é pouco. Mas deixem-me também personalizar: deixem-me que vos lembre o Miguel que quer passar a mão no cabelo da professora a toda a hora, que quer a professora a seu lado para fazer o exercício, no Ilídio que tem um sentido de justiça como nunca vi nenhum e que ficou estupefacto quando hoje lhe chamei inteligente, que é. Falemos também no Bruno que se arma em rebelde para se defender, mas que basta darmos-lhe duas palavras mais suaves que ele se derrete todo; e no Carlos que anda sempre a passarinhar à minha volta para eu lhe chamar feio para ele sentir que alguém lhe dá atenção.
Deixam-me louca. É verdade. Pela má educação, pela pouca vontade de aprender, mas não posso deixar de gostar deles. Chamem-me masoquista, vá!

2 comentários:

Anónimo disse...

Como sei que gostas de ler, toma lá qualquer coisinha .....

Uma coisinha que escrevi há muito tempo.....
Vê lá se adivinhas quem escreveu (não vale ler a breve biografia do autor, no final do texto).


Uma semana como outra qualquer


Quando penso nisto sinto arrepios. Vivemos num mundo cada vez mais incaracterístico, moldado por gente que tem objectivos bem definidos: o lucro fácil à custa de autómatos humanos que acabam por contribuir, com o seu trabalho, para o crescimento económico desmesurado, sem olhar a meios para atingir os seus fins. Que benefícios acabamos por tirar destas nossas vidas, a maior parte sem nenhum sentido?
Mesmo assim, julgo que, apesar desta vida rotineira e monótona que vivemos, há lugar a pequenos nadas que, de quando em vez, servem para que nos possamos aperceber que continuamos a existir. Espero que quem se der ao trabalho de ler este texto possa compreender que, se olharmos, com alguma atenção, à nossa volta, temos razão para encontrar um novo sentido para tudo isto. Basta que nos lembremos daquilo que se passou numa semana da nossa pequena e frágil existência. Até mesmo a rotina pode ser importante.

segunda-feira


Mais uma. Mais uma segunda-feira pronta a começar. Com tudo o que isso implica. Voltar ao trabalho, repetir as mesmas coisinhas de sempre.
Acordei com os olhos inchados da noite que passou. Por incrível que pareça, tenho a sensação que não sonho há eternidades. Nunca me lembro dos meus sonhos, o que só pode significar uma de duas coisas: ou não tive nenhum ou aquele que tive não tem importância alguma. Mas o que é que eu hei-de fazer? Se calhar julgam que me importo? Não. Até acho que vai ser um dia fenomenal. Quando abri a janela do quarto, o sol brilhava lá fora. Já não está tudo perdido, pensei. Pelo menos não está a chover. Saltei para a banheira pronto a me desfazer de alguma sujidade exterior. Que pena não se poder também lavar o nosso intímo todos os dias. Mas basta de pensamentos negativos, sem senso nem utilidade. O que é que eu vou vestir? Uma coisa qualquer, não tenho propriamente um guarda-roupa de estalo. Umas calças de ganga de cor azul, a minha cor preferida por sinal, uma camisa coçada a condizer. Dirijo-me à cozinha para preparar a primeira refeição do dia. Segundo os entendidos na matéria, a nossa primeira refeição deve ser equilibrada, quer em termos de conteúdo nutricional quer em termos de variedade e leveza. Um prato de cornflakes com leite e já está. Lá se vai o trabalho árduo dos especialistas. Nem uma coisa nem outra. Também, quem é que está para ter o incómodo de pensar nestas coisas, se a maior parte das vezes nem temos tempo para engolir o pequeno-almoço? Que desperdício. Tantos anos de ciência aplicada para isto. Quem se deve estar a rir, independentemente do sítio onde esteja, deve ser o sr. Kellogs: "- Meia dúzia de paspalhos dedicaram toda a sua vida ao progresso e à implantação de um estilo de vida moderno em que todo o mundo deve ter a consciência própria que uma boa alimentação é sinal e garante duma vitalidade física, psicológica e emocional, e eu é que tiro vantagem do tempo, ou melhor, da falta dele, para aumentar a minha já choruda conta bancária." Que desperdício. Mas que coisa! Lá estou eu outra vez a pensar nos outros. Prometo que, a partir de agora, vou pensar um pouco mais em mim.
Saio para a rua disposto a enfrentar todos as batalhas que se avizinham hoje. Pra já, vou ao café. Realmente é estranho. Todos os dias, quando saio de casa, a primeiríssima coisa que faço é entrar no café do Jesuíno, Jota para os amigos. Mas a esta hora o Jota ainda deve estar no primeiro sono. Sorte a dele.
- Bom dia, dona Isabel. Como vai?
- Tudo bem. E você?
- Está tudo bem.
- Então, o que é que vai ser?
- Uma bica curta e um "Chester" Ligths.
Depois deste magnífico diálogo, ocupo a minha mesa de sempre e dou uma volta aos jornais de hoje. Claro que são as notícias de ontem, mas que é que se há-de fazer?
Bem, o Leandro fica ou não fica? Que raio de história esta. O meu clube, que com muita honra se intitula Sporting Clube de Portugal, parece fazer justiça ao nome. É um clube de Portugal. Um país e uma verdadeira nação, onde tudo pode acontecer com a maior das naturalidades sem que os seus filhos se sintam, de algum modo, surpreendidos e incomodados com a sua caótica situação. Em tudo, esta terra é diferente. Que orgulho! Ser português não é um título. É um estado de espírito. Somos a herança daqueles que, com muito sangue, suor e lágrimas, lutaram até à exaustão por este pedacito de terreno, onde, ao longo de intermináveis séculos, se desenvolveu uma cultura e afirmação de bons costumes capazes até de escurecer as mais esplendorosas e ancestrais civilizações.
Um pouco mais à frente, pouso a minha atenção nas declarações de um conhecido político da nossa praça que interrompe abruptamente as minhas lusas exaltações. Qualquer coisa como isto: " Os responsáveis governativos deste país devem ter atenção às recentes manifestações de afirmação das gentes do norte, como um sinal de insatisfação com o status quo actual. Queremos a regionalização já! ". Que besta! Estou a falar do jornalista que publicou estas declarações, é claro. Se o Dom Afonso Henriques soubesse...
Bem, já são horas de apanhar o autocarro para a estação. Se não, ainda chego atrasado. Tenho de apanhar o comboio das nove e vinte e sete. O tempo é implacável. Nem nos deixa respirar. "Vamos ao Oriente", diz um letreiro azul mar. Será que nos estão a convidar para os novos descobrimentos marítimos? Com certeza que não. Mas, se atentarmos bem, podemos interpretar doutra maneira. Suponhamos que este letreiro contém uma mensagem subliminar. Ora, o que ele quer dizer é muito simples: Descubram-se a si mesmos. Façam uma viagem interior à procura do vosso Oriente íntimo. Dêem largas à vossa imaginação. Não se deixem levar pela rotina esmagadora da sociedade de consumo imediato. Conquistem novos espaços. Vamos firmar uma posição. Sejam dignos desta nossa herança. Viva Portugal!
Eu hoje acordei muito patriótico. O que até nem é costume. Normalmente, e como bom português, tenho uma "leve" tendência a dizer mal de tudo e todos sem razão aparente. Mas que raio, já é altura de mudar. O que me assusta é esta mudança tão radical. Será que estou doente?
Que bom, arranjei lugar sentado. Até para nos sentarmos, sem fazer nada e à espera que a viagem decorra, é preciso esperar. Sim, porque todos temos o mesmo direito de viajar sentado.
A vida lá fora decorre sem incidentes de maior, aqui e ali entrecortada por laivos de esperança num mundo melhor e mais justo. Sem dar por isso, escuto, inocentemente, parte da conversa entre uma mulher de meia idade e uma jovem de vinte e poucos anos, que por sinal até é bem gira, o que, decerto, terá despertado a minha modesta atenção. Dizia a mais jovem:
- Veja lá, que fui ontem, outra vez, à minha médica, para ver o que se passa com estas borbulhas que me têm aparecido ultimamente. E ela continua a dizer que isto não tem grande importância. Mas já gastei um balúrdio em medicamentos e até agora, já lá vão meses de tratamento, não desapareceram.
- Ó filha, se calhar não tem mesmo grande importância.
- Ah! Mas fica feio. Já viu, que mesmo que a pessoa ponha maquilhagem isto não se consegue disfarçar?
- Isso com o tempo desaparece. A milha filha também tinha algumas quando era mais nova e eu pensei que ela até ficasse marcada. Fomos ao médico da pele, ele receitou uma pomada e também não resultou. Mas passado algum tempo desapareceram.
- Mas saí de lá assustada. A médica diz que este sinal que tenho aqui atrás do pescoço tem que ser tirado.
- Ó filha, não acredite em tudo aquilo que os médicos dizem. Se eu fosse a si queria ouvir a opinião de outro médico. Sabe, é que nem todos têm as mesmas opiniões. Para alguns, isso não tem importância. Mas se vir que o sinal começa a aumentar ou a mudar de cor então deve ir ao médico. Pode ser perigoso.
E blá, blá, blá. E blá, blá, blá. Uma miúda tão gira preocupada com uma borbulhita. Não há pachorra! O GreenPeace tentando salvar o planeta e ela preocupada com uma simples borbulha. Onde é que a indeferença geral irá parar! Felizmente, não tem aliança no dedo. Se não, já viram que infelicidade. Ufa, o comboio está a chegar. Finalmente estou novamente cá fora.
O ar fresco da manhã dá-me novas forças para enfrentar toda a sorte de encontros, chatices e fala-baratos que irei encontrar ao longo deste longo dia.
Cheguei à escola. As aulas decorreram normalmente. Muito normalmente. Normalmente demais para o meu gosto. Até parece que entrei dentro de um cemitério cheio de zombies. Mas não daqueles que se vêm nas fitas de terror de má qualidade, prontos a saltar sobre raparigas indefesas e verdadeiramente apetecíveis. Não. Estes zombies são estáticos, não têm vida. Parecem telecomandados por infravermelhos. Só é pena as pilhas estarem gastas. Quando acabo a minha aula, com o sentido do dever cumprido, parece-me que estive a falar uma língua diferente. Não me consigo fazer entender. O espaço físico à minha volta deve ser vazio, visto que os sons não chegam ao seu destino. Tenho a sensação que estou a pregar para pedras. Que frustração. Mas nem tudo é mau. A seguir vou dar outra aula. Pode ser que esta seja melhor. Qual quê. Nem pensar nisso.
Acabei. Dou dois dedos de conversa com uma colega interessante e que se sente um pouco como eu. Temos de mudar de estratégia, diz ela. Eu digo-lhe que já as experimentei todas, como bom cientista que sou. - Adeus, até amanhã.
O almoço espera-me, ansioso. Bife com batatas fritas, ovo estrelado, um montinho de arroz branco e uma imperial fresquinha. Até o almoço é repetitivo. No entanto, começo a pensar que para chegar a esta obra prima da culinária, muitas pessoas, cheias de boa vontade, tiveram de trabalhar afincadamente, utilizando técnicas que nos parecem quase que inatas, mas que requereram aturadas buscas, avanços e recuos. Quantos lares terão sido destroçados por percursoras das actuais donas de casa, sempre em busca do desconhecido, incompreendidas à época, sofrendo em silêncio a censura dos outros que, decerto teriam preferido búfalo ou mamute na brasa acompanhado com tubérculos frescos a saber a lama. Será que os antigos homens de Neanderthal já conheciam a arte culinária? Que espécie de preparados essas donas de casa paleolíticas concebiam durante as longas esperas que mediavam entre a partida dos "maridos" para a caça e a sua chegada mítica e triunfal? Assim terá avançado a humanidade, por entre glaciações geológicas e emocionais, rumo ao progresso culinário? Terão sido verdadeiramente compreendidas as mentes geniais de então? Como parece, este acto banal da ingestão de um simples bife com batatas fritas não é, de maneira nenhuma, uma atitude pacífica. Devem ter-se travado duras batalhas. Poderia ser um bom tema para um programa televisivo interessante: "O despertar da paleoculinária e as suas repercussões nas sociedades modernas." E os CroMagnon? Que fariam eles à luz difusa duma tocha de caverna? E os antigos egípcios? Comeriam eles cabidela de tartaruga ou qualquer coisa requintada como ovas de crocodilo do Nilo com sementes de papiro? Deve ter sido durante a Idade Média que a humanidade conheceu a verdadeira escuridão alimentar. Não admira que muitos milhões tivessem sucumbido à peste. Com aquilo que se devia comer na altura. Apesar de tudo, o bife com batatas fritas sobreviveu até chegar aos nossos dias. Uma autêntica pedra basilar da arte de bem cozinhar. Que Deus guarde a alma de quem, com o risco da própria vida, conservou esse tão precioso legado.
Acabado o sonho, regresso num ápice, e de barriga cheia, à dura realidade. Puxo de um cigarro. O fumo escapa-se, qual bailarina clássica, que executa com mestria, um bailado indefinido e sem sequência aparente. Olho para o rótulo do maço de tabaco e leio: "Diário da República - Portaria 821/91 - Prejudica Gravemente a Saúde". Realmente têm toda a razão. Bem vistas a coisas, os políticos até dizem coisas acertadas.
Está na altura de fazer uma pausa. É nestes momentos que a gente se põe a pensar. Damos, então, utilidade a este quilo e meio que carregamos dentro da cabeça durante toda uma vida, a que alguns, com muita pompa, chamam cérebro. E se tentássemos calcular a energia gasta durante toda a vida para carregar este fardo que, na maior parte das vezes, só atrapalha? Vejamos então: Supondo que a esperança de vida média de um indivíduo normal é de setenta anos e supondo que dorme oito horas por dia, teremos dezasseis horas de actividade diária. Multiplicando por trezentos e sessenta e cinco e, em seguida, por setenta, obteremos um total de quatrocentas e oito mil e oitocentas horas de trabalhos forçados. Como nem toda a gente entende a ciência física, vou só apresentar o resultado final em quilowatt-hora. Seria qualquer coisa como dois mil setecentos e cinquenta e cinco quilowatt-hora. Não me perguntem como cheguei a este resultado. É segredo. Bem, supondo agora que essa energia era eléctrica e distribuida ao domicílio pela nossa querida Electricidade de Portugal, EP, a um custo de vinte escudos ou zero vírgula um euro, teríamos de desenbolsar a singela quantia de cinquenta e cinco contos e cem (IVA incluído), ou seja, nada mais nada menos, que um ordenado mínimo. Tudo isto para obtermos um rendimento mínimo garantido.
Mas deixemo-nos de coisas triviais e passemos a outras bem mais importantes. Falemos de amor. Oh, l'amour! Como a vida seria vazia e sem sabor sem ele. Na realidade, passamos todo o nosso tempo a pensar nele e, portanto, o cálculo anterior deixa, por isso, de ter qualquer utilidade prática. Apercebo-me dum aroma dos deuses, enquanto caminho lentamente em direcção a casa da minha mãe. Será que a minha pituitária está a funcionar devidamente? Sim, sim, está. Que maravilha da natureza acaba de passar por mim. Absolutamente fantástica. Ultra, hiper, super fenomenal. E eu a pensar que isto só existia nos filmes. Mas não, passou a escassos centímetros das minhas glândulas. Toda a minha química entrou, subitamente, em acção. Uma miríade de combustões, oxidações, transmutações. Toda uma charada de confusões. Há tipos com sorte, penso. Basta estalar os dedos e pronto: o mundo é deles. Que felicidade. Talvez o Axe ajude. Não sei. Ou talvez seja apenas um mecanismo tão simples que ainda não consegui entender. De qualquer modo, suponho que não vale muito a pena pensarmos demasiado nisso. Uns têm, outros não. Simples, não é? Mesmo assim, continuo a pensar no mesmo. Qualquer dia dou comigo em doido. Talvez seja melhor parar. Por agora.
Durante o dia há horas em temos a sensação que o mundo passou por nós e nem sequer demos por isso. Vou concretizar melhor. Por vezes existe um branco onde parece que nada se passou. Do género, lugares que cruzámos e não vimos, sons que escutámos e se perderam, etc, etc, etc. Que se passará entretanto? Somos obrigados a desligar a máquina para manutenção ou simplesmente o tempo acaba de parar? A explicação do fenómeno esbarra com a impossibilidade de não nos conseguirmos lembrar de coisa alguma. Como acontece comigo quando sonho. Pela similaridade dos dois casos, diria que dormimos acordados ou que somos sonâmbulos. Temos de fazer uma pausa no tempo, todos os dias, para que possamos nos autoexcluir de toda a porcaria que nos rodeia. É um mecanismo de defesa pessoal que é devidamente accionado na altura própria.
O resto do dia resume-se a mais alguns momentos sem pingo de notoriedade, uma refeição para recuperar energias e a umas aulitas banais antes de regressar novamente ao conforto do lar.
Finalmente em casa. Depois de um dia cheio de emoções, vou poder finalmente sentar-me em frente à caixinha mágica. Tomar conhecimento daquilo que aconteceu com outros que, quiçá, vivem como eu, momentos semelhantes. Escuto com desmesurada atenção:
"- O dia de hoje decorreu, sem incidentes de maior, na Expo 98. A fraca afluência de visitantes não preocupa os responsáveis do evento, que afirmam que, à semelhança do que tem acontecido com outras exposições mundiais, a última exposição mundial do século não deveria constituir excepção. Dos duzentos mil visitantes esperados durante o primeiro fim de semana na expo, apenas cerca de quarenta mil compareceram. Não se têm registado filas de espera para a visita aos principais locais da exposição, o que tem contribuído para uma verdadeira acalmia geral ..."
Que hipocrisia, meu Deus. Se isto continua assim, onde é que se vão atingir os oito milhões de visitantes inicialmente previstos? Nem vou conseguir dormir só de pensar nisso. Mas que grande lata, as afirmações destes "responsáveis". Como se alimentam de verdadeiras mentiras as mentes estreitinhas da população nacional. Toda a gente sabe que esses "responsáveis" tencionariam lucrar alguns milhões logo nos dias iniciais da exposição. Mas a relativa falta de sucesso inicial não se pode, de maneira nenhuma, admitir. Há sempre uma explicação para tudo.
"- O primeiro ministro e respectiva comitiva continuam a sua visita por terras do Alentejo. Não perca, já a seguir a um curto intervalo, todo o desenvolvimento desta e de outras notícias que fizeram o dia de hoje."
Outra mentira vergonhosa. Curto intervalo. Um autêntico chorrilho de anúncios publicitários, que, entre outras coisas sem importância, nos convencem a comprar grelhadores portáteis com resistências eléctricas e construídos segundo os mais exigentes padrões de qualidade, por apenas uma ninharia de dezenas de contos mais gastos de envio, shampoos milagrosos que nos livram, num abrir e fechar de olhos, de toda aquela incomodativa caspa que nos atormenta no dia-a-dia e cujos resultados, comparando com produtos vulgares, constituem uma vitória indiscutível da ciência, e ainda suculentas refeições caninas, preparadas com muito amor e carinho para satisfazer todas as necessidades de um qualquer melhor amigo do homem. Isto para não falar daquelas adivinhas, com respectivas opções de resposta ao bom estilo americano, verdadeiros desafios à capacidade de raciocínio humano, que nos propõem, de modo a conseguirmos equipar a nossa modesta e obscura cozinha com trinta contos de lustrosos e úteis electrodomésticos. Que amigos que eles são! Depois de mais alguns reclames sobre a mais variada quantidade e qualidade de programas recreativos e de informação imprescindíveis, e de vinte e cinco longos minutos passados, volta novamente o bem vestido apresentador, pronto a satisfazer a nossa constante avidez pelo acontecimento alheio.
"- Não perca, já a seguir, toda a informação económica, no RTP Financial Times, apresentada, como sempre, pelo jornalista Carlos Vargas, seguida da informação sobre o estado do tempo. Boa noite e até amanhã, se Deus quiser."
Estou cheio de sono. Tenho a impressão que vou dormir.

terça-feira


Um novo dia. Devia consultar a minha agenda para planear melhor as minhas acções de hoje. Mas nem tenho agenda. De facto sou um tipo completamente desorganizado. Tão desorganizado que se a desorganização matasse já estaria a fazer tijolo há muito tempo. Apesar de tudo, e bem vistas as coisas, a desorganização tem as suas vantagens. Algumas deveras convenientes. Por exemplo, podemos sempre pôr a nossa carinha mais inocente e angelical e dizermos que nos esquecemos de um determinado compromisso, sem que a nossa própria consciência fique demasiadamente afectada. Quanto ao que os outros pensam de nós, já não estou assim tão seguro. Talvez pensem: "Que fulaninho tão execrável. De facto, hoje em dia, já não podemos confiar nem na própria sombra. Nunca faz nada com jeito". Aliás, que interessante este pensamento. Acho, até, que deve ser eleito o pensamento do dia. Para muita gente isso é uma preocupação constante. Que será que os outros pensam de mim? É, de facto, a preocupação dominante nos dias de hoje. Que será que os outros pensam de mim? Boa pergunta. Se me puser a adivinhar sou capaz de chegar lá. Mas o melhor é nem querer saber. Poderia também ficar mais afectado do que já ando. No entanto poderei abster-me da minha pessoa e, salvaguardando a minha própria posição, tentar explicar porque será tão importante a opinião alheia em relação à nossa imagem. É, pelo menos, mais fácil tentar explicar as preocupações dos outros, fingindo que não é nada comigo. Bem, vamos lá então:
A opinião dos outros em relação a nós é de extrema importância, visto que a espécie humana é uma espécie social. Quaisquer situações embaraçosas em que alguém se veja metido, transformam-se logo em notícia de abertura de qualquer bloco informativo. Mas o contrário também é verdadeiro. As boas acções também passam para o domínio público, à velocidade da luz, e são igualmente criticadas, e esmioçadas ao pormenor. Vejam o caso da Princesa Diana de Gales. Quando resolveu estoirar com uma mina antipessoal, algures em Angola, logo alguns abutres vieram dizer que estava a tentar angariar fundos, que não era nada daquilo que ela demostrava ser, que isto, que aquilo. Verdade, verdade, só ela sabe. Mas que fazer?, terá ela pensado. Se calhar é preferível mudar de estratégia. Vou fazer o papel de caça dotes para ver se passo a ser mais considerada. Pois nem mesmo assim. Vieram logo afirmar que era uma desavergonhada, que só estava interessada no papel, nas vivendas de luxo, nas limousines, nas férias de sonho em Bora-Bora ou nas Seychelles. Mas a vítima de tal assédio também não escapou. Vejam bem que tinha de escolher um mouro. Acaso não existem tios Patinhas de pele branca? Que heresia, meu Deus. É, no entanto, curioso que a única maneira de expiar os pecados consiste em ir desta para melhor, mesmo que contra vontade. Aí sim. Passamos a ser autênticos herois. Sofremos uma metamorfose. Fizemos muitas asneiras na vida, mas tudo por amor. Que maneira de começar o dia. Deve ser da chuva irritante que cai lá fora.
Dias destes dispenso eu bem. Tenho de carregar mais um acessório, o guarda-chuva. O nome não é realmente muito famoso. Guarda-chuva. Na realidade, a gente quer é ver-se livre dela. Quem terá sido o inteligente que deu o nome ao guarda-chuva? Um esquizofrénico compulsivo qualquer, sem margem para dúvidas. Tenho uma vareta partida. Eu não, o guarda-chuva. E para chatear não tenho outro guarda-chuva em casa. Bem, lá terá de ser. Vou chegar encharcado. Que desperdício ter tomado banho, ainda não há dez minutos.
O comboio estava apinhado. Que calor humano. A CP é tão nossa amiga. O que eles fazem para que nos sintamos bem. Fomentam a verdadeira aproximação entre a humanidade. Que desígnio tão nobre. Até Jesus Cristo não conseguiu tal coisa. Bem, mas Jesus Cristo também não andava a pisar os sapatos a ninguém e naquele tempo ainda não tinha sido inventada a locomotiva. Por azar fiquei "colado" a um fulano que deve ter aberto a janela do quarto quando se levantou. Pelos vistos deve ter pensado o mesmo que eu, ou seja, que com um dia destes era desnecessário tomar um banho matinal. Que pouca sorte a minha. Estou-me sempre a queixar. Até pareço o Adrian Mole cujo coração suspira constantemente pela bela e frágil Pandora. Devo tentar ser menos frívolo. Encarar esta vida como uma benção divina. Como uma prova da nossa capacidade de sermos olhados como filhos de um generoso Deus. Amén! Sim, ele vai saír no Cacém. Afinal, somos mesmo filhos de Deus. Uma rapariga assim assim encosta-se a mim. Será que ela adivinhou o que eu estava a pensar? Não pense ela que, apesar de ser filho de Deus, me sinto como o Papa. Não sou assexuado, por favor. Acho que estas coisas se notam. Estamos quase a chegar, senão não sei o que faria. Hoje vou a Lisboa tratar de uns assuntos pessoais que não são para aqui chamados.
Regresso à hora do almoço, prontinho a me deliciar com um prato de feijoada. Não, não vou fazer o mesmo que ontem. Já estou perfeitamente esclarecido acerca da evolução da arte de bem cozinhar. Basta comer uma feijoada como esta para termos a certeza.
Como tenho a tarde livre, vou ouvir um pouco de música. Que maravilhosa é a música. Não há nada como a música. Parece que nos transporta para as nuvens ou para sítios distantes, cheios de praias de areias finas e brancas ladeadas por coqueiros frondosos, com águas azuis e cristalinas sempre à temperatura ideal. Faz-nos esquecer a nossa insignificância, transforma-nos todos em Napoleões, capazes de conquistar o espaço que quisermos. O disco acabou. Apesar de o ter achado muito razoável, parece-me que não tenho pachorra para o tornar a ouvir. Como não tenho outro ali à mão, ligo o rádio. Na minha estação radiofónica preferida, a TSF. Se pusermos de parte os anúncios que emergem em catadupa, sabe-se lá de onde, o resto é bastante bom. Na minha modesta e despretenciosa opinião. Não quero, de modo nenhum, fazer publicidade. Eles já a têm de sobra. Mas a informação é concisa, os temas são desenvolvidos com apropósito e, o que é para admirar, numa estação privada, absolutamente actuais. Se o Rangel fosse telepático, amanhã eu já estaria a mediar o Fórum ou a ditar as notícias para um microfone com um longo pescoço. Mas o que é demais aborrece. Então só me resta tirar uma soneca ou ler um livro. Opto pela segunda alternativa. Como não trago nenhum comigo, vou esquadrinhar a estante da minha irmã. É absolutamente louca por livros. Não sai ao irmão. Nem à mãe. Logo, presumo, ainda que, com algumas dúvidas, que deve saír ao pai. Procuro, procuro, mas não encontro. Nunca desistas Pedro. Procuro novamente. Ah! Agatha Christie. Era mesmo isto que eu precisava ler. E ainda por cima é com o famoso Hercule Poirot. "Um estranho homenzinho de bigode fino e cabeça em forma de ovo". Penetro na trama. A intriga adensa-se lentamente. Que imaginação fabulosa tinha a autora. Até parece que já nasceu dentro duma esquadra da Scotland Yard. Poirot é um fulano cheio de método, que afirma que a única arma de que se serve é das très petites células cinzentas. Acho que a Agatha Christie, naquele tempo, já teria adivinhado que, num futuro não muito distante, a publicidade à massa cinzenta nunca seria demais. Pode ser que as pessoas comprem.
Nem dei pelo passar do tempo. São horas de ir para as aulas. Ainda bem que já parou de chover. A não ser no norte do país. Bem feita, para não terem a mania.
As aulas estão a tornar-se muito repetitivas e enfadonhas. Provavelmente, com o aproximar do final do ano lectivo, a memória RAM dos alunos começa a ficar completamente atulhada de coisas que, salvo raras e reconfortantes excepções, não têm absolutamente nenhuma utilidade. Que interessa saber como é que a Joanna d'Arc se finou?; ou o que importa o conhecimento sobre a vida amorosa de uma ameba?; ou ainda sobre aquilo que aconteceu à Austrália durante o período Pré-Câmbrico? Eu também não me posso vangloriar. Ponho aquelas tristes criaturas a calcular a massa de Júpiter baseadas no conhecimento do período de revolução do satélite Io. Que parvoíce! Mas já que falei nos planetas, dou comigo a viajar nas estrelas, a uma velocidade de alguns milhares de anos-luz por segundo. Depois de ter percorrido três mil duzentos e quarenta quarks, encontro-me do outro lado do universo. Imagino, então, como será a vida no outro lado. Possivelmente encontraria sistemas estelares povoados por estranhos homenzinhos de cabeça em forma de ovo que se reproduziriam por intermédio do aparelho simpático. Ou então, pequenas esferas planetárias habitadas por algas carnívoras e astutas que se alimentariam de desprevinidos pepinos do mar com bicos de pato e pernas de avestruz, cuja abundância seria directamente proporcional à sua estupidez. Não sei. Talvez uma civilização de Zorcs com espadas laser e gigantescas naves intergalácticas movidas a uma forma absolutamente desconhecida de energia. Apesar de me encontrar do outro lado do cosmos, sinto-me ligado, através de um cordão umbilical, a este mundo, mais propriamente aos sons que emanam da sala de aula. Regresso novamente pelo seu interior, e cá estou eu pronto para saír daqui.
Por sorte, hoje tenho boleia para casa. O Domingos sai à mesma hora que eu. Além da vantagem que é viajar de carro, podemos conversar sobre diversos assuntos interessantes. Bom tipo, o Domingos.
Chego a casa. A minha gata já está à minha espera. Nunca me larga sem que antes lhe faça umas festas. Tal e qual a minha mulher. Tenho quase a certeza que a gata gosta mais de mim do que a minha cara metade. Quando regresso a casa, estão sempre todos a dormir. Excepto a gata. Essa mantem-se fiel ao meu desiquilibrado horário. Quando me vê, é como se o não fizesse há anos. A Quina, ou seja, a gata, deve pensar que eu sou o seu príncipe encantado ou coisa parecida, tal é a alegria de me tornar a reencontrar no seu castelo das mil e uma noites. Hoje não estou com disposição de me ligar à televisão. Por isso, decido começar a escrever este texto. Mas, como alguém, ainda há bem pouco tempo, me disse, uma folha em branco, ainda que virtual, constitui o maior desafio com que nos podemos defrontar. Decido aceitar esse desafio. O problema está em começar a escrever. Escrever sobre quê? Não tenho assim uma experiência de vida tão rica que me permita contar uma história cativante, com princípio, meio e fim. Por outro lado, não me sinto com imaginação suficiente para inventar uma trama, puramente ficcional, que tenha alguma complexidade e motivo de interesse. Logo, só se for sobre qualquer coisa banal. Por, exemplo, e se fosse a história de uma semana igual a outra qualquer?
As horas passam. Quando dou por mim, são quatro e meia da manhã e só consegui três ou quatro míseras páginas A4, escritas directamente no teclado do computador. Apercebo-me, então, do trabalho que deve ter um escritor, passar para o papel, toda uma série de emoções, pensamentos. Entrelaçar uma trama literária, jogar com os desígnios das personagens, cunhar uma obra com o seu próprio estilo, é uma tarefa complicada. Decididamente, acho que nunca conseguirei ter alma de escritor. Paciência. Está na altura de ir dormir, se não as minhas células começam-se a queixar, e eu não preciso de mais problemas. Até amanhã, se Deus quiser.

quarta-feira


Como parece, hoje é um daqueles dias em que a vida passa por nós sem darmos por isso. É nestes dias em que ficamos fora daqui, em que pensamos na vida que levamos. Analisamos os prós e os contras das nossas atitudes e relações. Mas esta escolha não é voluntária. Pura e simplesmente acontece. Não se pode fugir dela. Somos obrigados, mesmo que não queiramos, a fazer uma introspecção forçada. Hoje é um desses dias de viagem ao nosso centro. Nem tive tempo de me preparar para ela porque nunca sei quando é que vai acontecer. Tudo o que se terá passado hoje é absolutamente irrelevante em comparação com esta viagem. Nela, observamos um flashback de acontecimentos, como peças de um grande puzzle que a vida nos põe à disposição, de modo a que possamos resolvê-lo com sucesso. Mas não é tudo aquilo que procuramos? Sucesso?
Resta, todavia, saber que espécie de sucesso andamos à procura. Trata-se quase de adivinhar o tipo de sucesso que encaixa perfeitamente com a nossa própria consciência. Será mesmo isto que eu pretendo? Ou será antes aquilo? O que a nossa consciência não nos diz, infelizmente, é se aquilo que escolhemos está completamente certo. A alternativa é experimentar. Mas uma experiência, por mais simples que seja, requer tempo. E tempo é coisa que me parece faltar neste momento. Portanto, tenho de me auto-avaliar, e depressa.
Uma coisa que a vida me tem ensinado tem a ver com o facto de que, quer queiramos quer não, a nossa personalidade nunca muda. Haja o que houver, somos sempre feitos da mesma massa. Nasce connosco. Leva-me a crer que, tudo o que há a fazer é moldarmo-nos o mais possível. Mas é uma opção inaceitável. Porquê?
Durante toda a minha vida recordo excertos de momentos. Alguns felizes, outros, desilusões. Se calhar alguns destes nem foram desilusões. Talvez tenham sido antes ilusões. Sinto que esse é um dos problemas. Vivo demasiadas ilusões. Chega uma altura em que sinto que não foi para isto que me esforcei tanto. Ninguém parece compreender-me. Talvez estejam muito ocupados a fazer o mesmo que acabo de dizer. Não sei. Por incrível que pareça, todos aqueles de quem gosto não me conseguem entender. Também já estou habituado, esta não é uma situação completamente nova para mim. No entanto, deixa-me com a sensação de que estou mil vezes errado. Só que, quanto mais reflicto no assunto, mais tenho a certeza de que estou um milhão de vezes certo. É um verdadeiro turbilhão de dúvidas. Talvez seja um velho cliché, mas trata-se de um problema existencial. Não se riam porque não tem graça nenhuma.
À minha volta existe uma esperança. E essa esperança tem nome. É a única que me pode transportar para fora deste pesadelo que vivo constantemente. Se, ao menos, lhe pudesse dizer. Se lhe fizesse compreender que a salvação reside nesta aproximação. Quem dera saber como conquistar essa esperança, essa esperança com nome e que vive, se calhar e também sem saber muito bem porquê. Muitas coisas que fiz não resultaram. Empenhamento a mais ou a menos. Estou preso, já não sei por onde começar. Torna-se complicado escrever isto. Esta vida é mesmo uma merda.
Quando acordo, estou sentado à mesa de um café, em frente à escola onde trabalho. Lembro-me, então, de que hoje ainda não comi nada. Já é noite. O tipo de trabalho que faço aqui deixa-me demasiadas horas livres. Horas demais em que tudo aquilo que tenho para fazer é pensar. Mais uma incursão ao inferno. Nem a simpatia de algumas pessoas, que parecem adivinhar que algo de errado se passa comigo, me consegue animar. Mastigo mais um pedaço de matéria orgânica. Enquanto isso, continuo a tentar encaixar mais algumas peças do puzzle. Mas não encaixam. Devo estar a ver tudo ao contrário. Os encaixes são de formatos diferentes. Este puzzle de mil e uma peças está a saír todo trocado.
Dirijo-me novamente ao comboio. Vai-me levar de volta ao meu refúgio. Sento-me. Abro o jornal desportivo que, sem saber como, comprei de manhã. As notícias não são sobre desporto. O que estou a ler são pedaços da minha vida. O jornal aberto, diante dos meus olhos, serve de disfarce, como se eu fosse algum detective ou agente secreto numa missão impossível.
O "pica" tira-me do transe, por breves momentos. Mas com a rapidez de um relâmpago, volto, novamente, às minhas cogitações. O comboio pára. Saio devagar, caminho devagar. São cerca de dois quilómetros até casa. Mas são, principalmente, dois quilómetros de dúvidas, de indefinições, de problemas.
Finalmente em casa. Apetece-me escrever. Outra vez até às tantas da manhã. O sono chega por fim.

quinta-feira


Os cornflakes sabem-me a tudo menos cornflakes. Mais um dia que começa bem. Hoje é dia de trabalhos aturados. Ir ao banco depositar a prestação da casa, preparar o teste de física da última unidade, concorrer a mais umas longínquas oportunidades de emprego (e de míseras compensações monetárias), enfrentar a quinquagésima milésima entrevista com vista a poderem testar das minhas reais capacidades de realização e empreendimento. Realmente, e pensando bem, devo ser uma das poucas pessoas neste mundo que se submeteu a uma maior quantidade de testes. Psicológicos, psicotécnicos, psicossomáticos, eu sei lá. Metade desta região deve ter conhecimento do meu perfil. Já fui completamente esquadrinhado, analisado, desmontado e remontado. Quantas teses de doutoramento em psicologia aplicada não devem ter sido apresentadas, com sucesso, sobre mim? Nem deve haver conta. Talvez até já tenha sido publicado algum livro sobre isso. Parece que estou a ver o título: "Ensaio sobre a incapacidade de adaptação às solicitações constantes das sociedades modernas". Acho que, tendo sido um indispensável coloborador da obra, como objecto de estudo, obviamente, merecia um pouco mais de respeito. Uma "share" nos lucros de direitos de autor por alguém adquiridos vinha mesmo a calhar. Afinal, não é todos os dias que alguém se pode gabar de ter contribuido, de forma tão abnegadamente decisiva e generosa, para que as gerações futuras possam viver mais psicodesafogadas. E isto ainda não é tudo. Adiante.
Esta entrevista foi particularmente curiosa. Curiosa, porque igual a tantas outras. Depois das formalidades iniciais, imprescindíveis, vai começar mais uma batalha entre mim e o entrevistador. Neste caso, até era uma entrevistadora. Olhou-me de alto a baixo, mais baixo do que alto. Eu, com algum prazer e sem dar muito nas vistas, fiz o mesmo. Avaliam-se, numa primeira impressão, os oponentes. Vê-se, pelo seu comportamento e por alguns ornamentos e acessórios, de que eu destaco, um relógio Gucci e um irresistível aroma a Tresor, que é uma pseudo-self made little woman-executiva de carreira. Até me atrevo a adivinhar o que está a pensar no momento. Qualquer coisa parecida com: "Este tipo julga que vai conseguir alguma coisa, mas está redondamente enganado, sei lá! Quem julga ele que é ao vir aqui vestido com o seu único fato, comprado sabe-se lá onde, convencido que é a pessoa indicada para preencher o lugar. Mesmo que fosse o Einstein ou o Bill Gates, este lugar já está, há muito tempo, destinado ao Miguel Correia Tavares de Sá e Cunha, que é enteado da cunhada do sobrinho-neto do Sr.Director. Devo-lhe esse favor por tudo o que ele, desinteressadamente, tem feito por mim". Se eu já sei o que ela pensa, porquê continuar a entrevista? Por que razão não me vou já embora? Não, nunca se desiste. Pode, até, ser que ela tenha um acesso de responsabilidade. Quem sabe se, de repente, não se lembra do tempo em que usava umas calças de ganga todas rotas no joelho, brinquinho no umbigo, falando um dialecto de "bués da fiche" e "tás a morder, meu?", mascando, durante cinco horas a fio, a mesma pastilha elástica com sabor a tutti-frutti, pelos menos no que diz respeito aos primeiros três minutos de mastigação. Afinal de contas isso só aconteceu há apenas seis meses atrás. Decerto não se esqueceu dos bons velhos tempos em que juntava os troquinhos, religiosamente amealhados, fruto de avarentas contribuições, no Natal e na Páscoa, do tio Jacinto, da madrinha Zézinha, e da prima Becas. "Ah! Que bons eram os meus tempos de «estudante» do curso de Economia e Gestão de Empresas da Univ. de Trás-os Montes e Alto Douro, em que me passeava, preguiçosamente, pelas ruelas escuras e sombrias junto ao mercado, sempre bem acompanhada por esperançados pretendentes de baba pendente. Ah! Como eram lindas e românticas as noites passadas ao luar de uma bola de espelhos presa ao tecto de uma fantástica e surrealista discoteca de meia tigela. Sim, sim. Aquilo é que era música a valer. A gente ainda chegava a casa com aquela batida revoluccionária a ribombar nos ouvidos. Não havia vida melhor". Pois é, mas isso pertence ao passado e Trás-os-Montes fica muito longe.
- Então, sr. engenheiro Pedro, diga-me qual foi a sua experiência profissional anterior? Quais são os seus objectivos ao candidatar-se a esta função?
São todos a mesma coisa. Fazem sempre o mesmo tipo de perguntas. Acaso será preciso uma doutora para memorizar meia dúzia de frases feitas tiradas de algum compêndio sobre a arte de bem entrevistar borreguinhos com pretensões a ocuparem um lugar de destaque numa empresa jovem, dinâmica e com grande implantação e prestígio no mercado nacional e internacional?
- Nesta função, em particular, não possuo nenhuma experiência. No entanto, a minha disponibilidade para corresponder às expectativas da empresa são grandes.
- Pois. Sabe sr. Pedro, a empresa prefere pessoas que já possuam alguma experiência no ramo, no mínimo três anos.
Que filha da puta! Então foi assim que conseguiste um lugar nos quadros da empresa? Deves ter começado a trabalhar aos catorze anos. Portanto, esta empresa é responsável pelo flagelo do trabalho infantil que assola este país.
- Mas, minha senhora. Se não trabalhar no ramo não adquiro experiência e se não possuir experiência não posso trabalhar no ramo. Não acha que isto é um verdadeiro ciclo vicioso?
- Sim, tem razão. Mas não sou eu que faço as regras, são as pessoas responsáveis desta empresa.
Eu logo vi que não eras lá muito responsável.
- Bem, sr. Pedro. Tive muito gosto em falar consigo. Se estivermos interessados nos seus futuros serviços, em breve contactarei consigo por carta ou pelo telefone. Bom dia e obrigado pela disponibilidade.
Só se for para irmos até ao teu apartamento do Restelo beber uns copos e fazer coisas bonitas. Mas tudo sem compromisso, está bem?
Acho que já posso riscar esta possibilidade de subir na vida da minha lista pessoal. Vou almoçar, que ainda há muita coisa para fazer.
Agora sim. Estou preparado para enfrentar mais um round na batalha contra o desemprego. Faço mais por essa causa do que todas as directivas da Comissão Europeia. Pego no jornal de hoje e começo a procurar alguma coisa que me interesse e que saiba fazer. Para um leigo em matéria de encontrar emprego, o panorama que se nos oferece em qualquer jornal, na secção dedicada à oferta do mesmo, o mundo parece um oceano de oportunidades. Promessas de chorudas compensações para o desempenho de tarefas tão simples como por exemplo dobrar cartas para enfiar dentro de envelopes, contactar pessoas inocentes e incautas através de telefone de modo a que possam, com um mínimo de esforço, dirigir-se a um hotel e ganhar, absolutamente sem encargos adicionais, uma semana de férias na Tailândia com tudo pago. Pela própria pessoa, evidentemente. Dá-se a este serviço inovador, um nome muito pomposo, um estrangeirismo desprovido de senso para a maior parte do comum dos mortais, de maneira a confundir algum espírito um pouco mais céptico ou arguto: telemarketing.
Não existe a mais pequena dúvida de que as pessoas que procuram emprego devem padecer de uma de duas doenças que passo a enunciar: cegueira precoce ou preguicite aguda. No entanto, de entre múltiplas e variadas escolhas, chamo a atenção para uma, verdadeiramente cativante, que tomarei a liberdade de reproduzir na íntegra, com vista a um melhor entendimento por parte dos caros leitores:

“Empresa sólida e com implantação no mercado nacional deseja recrutar, com a finalidade de renovar os seus quadros, vendedores que possuam as seguintes características:

- Idade compreendida entre 25 e 35 anos;
- Boa apresentação;
- Facilidade de expressão;
- Espírito dinâmico e empreendedor;
- Carta de condução e viatura própria.



Oferece-se:

- Uma excelente selecção de produtos, todos de inegável qualidade;
- Experiência de uma empresa com muitos anos de desenvolvimento nesta área;
- Remuneração compatível, e à comissão, sobre o total de vendas realizadas mensalmente.
- Integração numa equipa de vendas responsável.
- Possibilidade de ascenção a um cargo de responsabilidade dentro dos quadros da empresa.”

De todas as exigências acima transcritas, é lógico pensar que, um indivíduo poderá ser o suprassumo dos vendedores à comissão, que não terá a mínima chance se não possuir viatura própria. Por outro lado, poderei, sem qualquer espécie de dúvida, alvitrar que um tipo que possua viatura própria tem grandes hipóteses de conseguir uma carreira de sucesso no domínio das vendas, nem que seja o maior escroque que este mundo já terá conhecido ou ainda um qualquer macacoide de fato e gravata convencido que domina, com distinção, todas as técnicas sobre como enganar um desconhecido, aprendidas, a muito custo, num curso tirado por correspondência em apenas dez lições.
É, ainda, curioso verificar como estas empresas de sucesso funcionam. Só fornecem o produto. Todo o resto do trabalho é desempenhado pela equipa responsável e dinâmica. E quando algum elemento dessa empreendedora equipa falhar, tudo o que haverá a fazer é colocar mais um anúncio idiota no jornal. Alguém, com uma ambição doentia, há-de caír. O ciclo volta, então, a fechar-se.
OK, já entendi! Vou preparar mais uma forma de espalhanço, que é como quem diz, mais um teste de avaliação da actual unidade de física. Desta vez decido ser um pouco mais benemérito e misericordioso, espetando-lhes com cinco dos problemas com mais popularidade dentro da classe daqueles que podem ser compreendidos por qualquer antropóide que se preze. Assim, não terei de me preocupar muito com os traumas psicológicos que daí possam advir.

sexta-feira


A semana de trabalho está, finalmente, a chegar ao fim. Aproxima-se, por isso, um fim de semana em que, certamente, haverá muito pouco para contar. Uma bica curta e um "Chester" Lights para começar mais um dia. Todos os dias as mesmas necessidades, os mesmos hábitos, os mesmos gestos, as mesmas pessoas. Até os objectivos são sempre os mesmos. Não existe um santo dia em que não me lembre de fazer todas estas coisas. No início deste diário semanal e pessoal referi-me à monotonia e à rotina como fenómeno condicionador das mentalidades do nosso tempo com tudo o que isso traz de enfadonho e negativo para a própria evolução do ser humano como espécie que, invariavelmente, se encaminha para um abismo, um plano inclinado que não consegue transpor. Esta situação é difícil de inverter, senão quase impossível, tais são as condicionantes que nos sufocam permanentemente. Parece restar apenas uma alternativa, que, podendo não ser cem por cento eficaz, se nos defronta como a mais simples e mais fácil de seguir: constatar que a rotina também pode ser importante e ter pontos de interesse. Trata-se, por assim dizer, de aprendermos com ela. De a combatermos nos seus próprios terrenos pantanosos. De mostrarmos a nós próprios que vivemos uma rotina cativante. Admito, porém, que possam não concordar total ou parcialmente comigo, mas, ainda assim, penso que isto deve ser levado em linha de conta. Mais a mais, suponho que não teremos mesmo nada a perder.
Começo a pensar que o curso das nossas efémeras vidas se assemelha, com alguma dose de boa vontade, à viagem de um comboio. Nela existe um início e um términus. Trilhamos, com algumas diferenças mais ou menos óbvias, um percurso muito semelhante. Passamos e paramos em quase todas as mesmas estações. Até deixamos desconhecidos entrarem nessas mesmas estações. São eles que alteram a monotonia dessa viagem. Mas terá isto algum relevo? Ainda não consegui descobrir. Quando isso acontecer, se é que que alguma vez acontecerá, teremos atingido o nosso propósito. Toda a viagem decorrerá até ao fim sem mais incidentes. Estarei, pois, preparado para saír na minha estação favorita. Aquela que me irá conduzir finalmente ao caminho da felicidade. Mas, até que esse momento chegue, todas, como esta, não terão passado, apenas, de mais uma semana como outra qualquer.

Crítica da especialidade


“ ... o autor demonstra uma capacidade incomum, ao tratar com simplicidade, as pequenas coisas desta vida ... “

in “Diário de Notícias”



“ Absolutamente espectacular!”

in “Le Monde”



” Que talento, meu Deus ! Como podem pessoas assim permanecer tanto tempo no anonimato mais profundo.”

in “The New York Times”



“ Quando li este livro pensei que estava a sonhar acordado, tal foi a sensação de leveza que me percorreu.”

in “Die Welt”



“ Os pobres habitantes deste mundo já têm mais uma razão para permanecerem vivos ...”

in “The Times”

Breve biografia do autor


Pedro Pinto nasceu em Lisboa a 4 de Março de 1965. Mas só lá foi para nascer. Toda a sua vida foi passada numa casa alugada num prédio, igual a tantos outros, na autodenominada cidade de Abril: a Amadora.
Gozou de uma infância feliz, rodeado das pessoas de quem mais gostava (e ainda gosta), frequentando, com prazer, a escola, desde a instrução primária até ao fim do antigo curso dos liceus. Desde determinado momento, durante a adolescência, demonstrou inclinação para tudo o que tinha a ver com o conhecimento científico, nomeadamente o estudo da química. Foi assim, e sem surpreender, que conseguiu ingressar na universidade, mais propriamente no Instituo Superior de Engenharia de Lisboa, onde, a 4 de Março de 1988, viria a concluir o curso de Engenheiro Técnico Químico. Elevadas esperanças se lhe deparavam. No entanto, nunca chegaria a fazer uso desse título, até porque as oportunidades não foram muitas, para não dizer nenhumas. Assim, e a princípio provisoriamente, decidiu candidatar-se a um cada vez mais desprezado cargo de professor no ensino secundário, profissão essa que ainda desempenha. Apesar de não ter sido o objectivo primordial da sua vida, desenvolve, com muito gosto e dedicação, essa sua actividade. A determinada altura da sua vida decidiu começar a escrever. Foi assim que nasceu esta obra. Se algumas mais virão, o futuro o dirá.

Anónimo disse...

Ser Professor é um estado de alma único que nos faz retemperar as forças de um dia para o outro, esquecer tudo o nos magoou na aula de hoje e enfrentar a de amanhã com a esperança de que vá fazer a diferença, não para si próprio, mas para os alunos. O Professor egoísta só consegue pensar no trabalho que teve a preparar a aula e no pouco que ela foi apreciada. Às vezes os alunos não conseguem ver para além da sua existência difícil que não se compadece com as tentativas de evangelização do Professor. Talvez uma palavra distraída ou mesmo a repreensão recorrente sejam tudo o que o aluno precisa para saber que está vivo e que há alguém, que não lhe é nada, mas tem mais expectativas sobre a sua vida do que ele próprio.
Se há alturas em que o desalento nos leva a pensar naquilo que poderíamos estar a fazer, sem muitas preocupações e sem acabar os dias e as semanas a perguntar porque é que nos metemos nesta vida, há outras em que o pior aluno da turma ou da escola nos faz ganhar o dia.