Eu acho que o Eugénio não se importa que eu ponha aqui estas palavras tão certas:
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
(foi mantida a grafia original)
Eugénio de Andrade, "os amantes sem dinheiro", in Poesia
4 comentários:
O poeta disse e assim ... fica tudo dito. É bom quando podemos dizer "é isto mesmo!", são estas as palavras que eu própria gostaria de ter dito e era mesmo daquela forma que as queria pôr. Deste modo, e não é plágio, também nós podemos descrever um sentimento, só que através do talento de um dos nossos imortais. Boa escolha, Malmequer!
Fiel ao compromisso, iniciei esta visita honrando o convite e reparando a lacuna anterior de, num percurso pouco ortodoxo e, alguns diriam, indelicado, ter primeiro espreitado a cave.
Desta vez entrei pela porta principal (a morada era, afinal, simples de reencontrar) e com a devida cerimónia, fui conhecendo as diversas divisões. Era uma casa com cheiro a Verão e gosto a mar, nostálgica só o suficiente para nos sertirmos vividos mas não velhos. Uma casa de férias, sem dúvida, num daqueles sítios que permitem, a menos de uma hora da cidade, colher os frutos do quintal no regresso de um dia de praia.
Já no escritório, olhando as estantes bem preenchidas, lamentei a minha ignorância e fiz projectos mentais de leituras futuras. Depois de contemplar a vista que a janela proporcionava e ao contornar a secretária quando me dirigia para a porta, deparei-me com um livro aberto que empurrava, no pouco espaço existente, o teclado do computador para junto do monitor. Deitei o canto do olho ao título e, porque não estava ninguém por perto, peguei naquele volume. Eugénio de Andrade, Os amantes sem dinheiro. Uma rosa outrora vermelha, seca e prensada entre páginas ao longo de vários anos, marcava o poema sobre o qual me detive.
Pouco crente nos determinismos do fado agradeci, não sei bem a quem, o feliz acaso, pois não poderia encontrar naquela florida casa tanta solidariedade quanto aquela emprestada pelo poeta, num "Adeus" que parecia esperar que eu o lesse e nele me revisse. E mesmo sabendo o efeito de sugestão que alguns estados de alma nos provocam, fazendo parecer que tudo nos é pessoalmente dirigido, dificilmente encontraria, naquele momento, palavras mais reconfortantes que aquelas.
A Laura esteve, todo este tempo, num dos quartos que não visitei. A oportunidade de a conhecer ficará, por isso, para a próxima...
Adorei, simplesmente, a tua escolha. Como um adeus pode ser tão belo...........
Boa tarde.
Sei que é a primeira vez que escrevo, – na verdade e a terceira que a primeira e a segunda foram anónimos – e quero tentar exprimir alguns sentimentos que me vão no coração e na alma. Ou talvez dizer algo.
Primeiro quero pedir desculpa. Pois qualquer parecença com a realidade é pura ficção. – Ou não.
Talvez ainda não esteja preparado para dizer muito, talvez com o tempo o coração de pedra se abra. Alguém disse um dia“água mole em pedra dura, tanto bate que um dia fura” talvez esse alguém tenha razão.
Sendo assim talvez não levem a mal tentar comparar um poema do Vinicius de Moraes ao de um do Eugénio de Andrade.
Mas se qualquer parecença com a realidade seja mesmo realidade, então entendem que estas palavras, tem muito significado.
Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.
Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!
“Vinicius de Moraes”
Passarinho com saudades
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